segunda-feira, 21 de Abril de 2014

A Gruta do Zambujal

... e as nuvens da memória colectiva.

Planta e Perfis

Descoberta a 18 de Junho de 1979 na frente de lavra da pedreira Tecnobrita, levou ao embargo da exploração da pedra, devido à intervenção do Presidente da Câmara de Sesimbra, Ezequiel Lino. Foram colocados guardas junto às entradas e pedidos pareceres a geólogos (Profs. Georges Zbyzewski e Veiga Ferreira) e à Associação Portuguesa de Investigação Espeleológica. Com base nesses pareceres, foi decretado sítio classificado de interesse espeleológico, pelo Decreto-Lei 140/79 de 21 de Maio.

 No local, procedeu-se entretanto ao encerramento, com grades de ferro, das duas aberturas conhecidas. Para evitar trepidações nas áreas próximas, a Tecnobrita recebeu, por troca, uns terrenos na Serra da Achada, próximo do Calhariz.

 Posteriormente, uma das grades de uma entrada é destruída, o que permite alguns actos esporádicos de vandalismo, especialmente na sala superior. Entre Setembro e Novembro de 94 a exploração de pedra que avançava por Sudeste do local, causa (devido à utilização de cargas explosivas) danos graves na Gruta, originando grandes fendas e fissuras longitudinais e transversais que fazem desabar parte do tecto da sala superior.

Em 1998 é constituída a Sociedade Grutas Senhora do Cabo cujo capital social (5 mil contos), é detido em 30% pela Câmara de Sesimbra, 30% pela Tecnobrita e, 40% pela Proporção.

A SGSC candidata-se com um projecto ao SIFT, a fundo perdido, do Fundo do Turismo, uma verba próxima dos 250 mil contos. Em Janeiro de 1993 o Sr. José Galo adquire os terrenos à Tecnobrita e os respectivos 30% do capital social da SGSC, pelo valor de 125 mil contos. Durante 1993 o Sr. José Galo adquire os 40% detidos pela Proporção, ficando assim com 70% do capital social da SGSC contra os 30% da Câmara de Sesimbra. É criada entretanto a Jovigruta a quem o Sr. José Galo cede o total da sua participação no capital social da SGSC. De salientar que a Jovigruta, é constituída pela mulher, filhas do Sr. José Galo, genro e pelo próprio. A SGSC nunca fez nada de visível no local, e é constituída maioritariamente por outra empresa que pertence na totalidade aos familiares da mesma pessoa que detém a exploração das pedreiras.

domingo, 20 de Abril de 2014

Não Tardará....

 
Gruta da Utopia
Para ser espeleólogo é preciso ter uma certa personalidade, o que muitas vezes torna difíceis as relações entre indivíduos ou grupos de indivíduos, que, no entanto, são animados de um mesmo ideal, de um mesmo desejo. Os grupos espeleológicos são muitas vezes competidores- quantas bulhas por um buraco! Dão-se guerras entre «tribos», guerras esgotantes e ridículas, que se saldam apenas em prejuízo da espeleologia.

A boa harmonia é indispensável. Não falo de uma harmonia oficial, baseada em regulamentos, arbitragens de uma federação qualquer, mas de um acordo cortês entre homens que prosseguem o mesmo objectivo, amam e respeitam as mesmas coisas. Respeitando as grutas, respeitam-se os colegas e salva-se a espeleologia.

Dos organismos privados, os poderes públicos só esperam uma coisa: que a anarquia domine a espeleologia. Que a pilhagem e a destruição das cavernas se agravem ainda mais.

Numerosas grutas foram já encerradas. As reservas estão agora em moda. Cada qual apressa-se a encontrar um pretexto para proibir a entrada na sua gruta: reserva biológica, gruta sob protecção oficial, reserva cristalográfica, pré-histórica, climática (enfim, uma infinidade de pretextos).

Não tardará que estas reservas estejam fechadas aos espeleólogos porque a maioria das grutas nestas condições são reservadas por pessoas que não têm nenhuma atracção pela espeleologia, nenhum amor pela gruta, mas têm, em compensação, interesses pessoais a salvaguardar.

 (Bouillon, Michel- Descoberta do Mundo Subterrâneo, Livros do Brasil, Lisboa, 1972).

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Descrição e Localização Geral das Cavidades da Arrábida Oriental

 

Distribuição Geral das Cavidades
 
De um modo geral, as grutas que compõem a porção territorial do Concelho de Setúbal, concretamente a parte meridional da Arrábida Oriental, são de pequenas dimensões, mas variadas. São aqui descritas todas as cavidades naturais penetráveis pelo ser humano, exceptuando abrigos, independentemente do seu desenvolvimento, que contenham o mínimo de informação que possibilite uma avaliação do seu destaque patrimonial no contexto local.
De todas as Cavidades, sete eram já existentes, oito são revelações e outras oito são inéditas. No que diz respeito ao património de interesse arqueológico que cada uma contém, é de referir que das vinte e duas, dez apresentam indícios de presença pré-histórica. Há ainda a salientar que, na maior parte, o património cavernícola encontra-se instalado e desenvolve-se sob duas principais unidades carbonatadas: em calcários do Jurássico - J²p e em Biocalcarenitos Miocénicos - MAz.
 

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

Património Subterrâneo da Arrábida Oriental VII

Gruta da Fenda do Bom Jesus da Arrábida

  Gruta diz respeito a um conjunto de fendas com orientação SW-NE, e que são, na sua generalidade, estreitas e altas desenvolvendo-se ao longo de poucos metros. Situa-se à cota de 314m desenvolvendo-se sob rochas sedimentares do Jurássico J1-2CL, com aproximadamente 160 Ma. (Manuppella et al, 1999). Ocupa uma área estimada de 150m² e tem um desnível máximo em relação à cota de entrada de -6,00m, sendo o seu desenvolvimento principal estimado, em projeção horizontal de 37m, segundo a orientação de NE-SW e SW-NE.


 Planta e Perfis 

   A sua génese estará associada ao anticlinal do Formosinho; uma estrutura intensamente fraturada, cortada por grande quantidade de falhas que definem uma estrutura em dominó (Kullberg et al, 2000). Admitindo a origem tectónica da cavidade em que por certo o fenómeno tectónico atrás descrito terá contribuído e sido determinante para a sua abertura, posteriormente a carsificação - que se deu e dá através das águas pluviais ricas em CO² - alargou-a através da dissolução e corrosão exercida sobre as rochas.

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

Património Subterrâneo da Arrábida Oriental VI

 
Gruta da Figueira Brava
 
A gruta, que possui uma ampla entrada sobre o oceano, tem um desnível máximo em relação ao nível médio das águas do mar de + 11,00m, ocupando uma área de cerca de 748m². O seu desenvolvimento principal estimado, em projeção horizontal, é de 74m segundo as orientações SE-NW e W-E. Geologicamente assenta sob Biocalcarenitos miocénicos com idades aproximadas de 15 Ma. (Manuppella et al., 1999).
 
Gruta da Figueira Brava; planta, perfis e cortes.
 
A sua génese terá emanado de dois fenómenos diferentes e sobrepostos. O primeiro é referente à carsificação - conjunto de processos baseados na infiltração da água e na dissolução que esta provoca sobre as rochas -, que resultou no alargamento das fraturas principais (M. T. Antunes, 1991). O segundo está intimamente ligado a manifestações das fases de evolução da dinâmica litoral, ocorridas durante o período glaciar Würm - iniciado há cerca de 110 000 anos e terminado há cerca de 10 000 anos (PAIS, J.; LAGOINHA, P., 2000). A ação de transgressão marinha terá, devido às ações químicas e mecânicas exercidas pelo mar, resultado no entalhamento basal sobre uma grande diáclase que percorre o maciço rochoso, alargando-a.

sexta-feira, 28 de Março de 2014

Património Subterrâneo da Arrábida Oriental V

 Gruta do Médico

A Gruta do Médico situa-se a cerca de 187m de altitude desenvolvendo-se sob rochas sedimentares do Jurássico - J²p, com aproximadamente 150 Ma (Manuppella et al, 1999). Ocupa uma área estimada de 174m² e tem um desnível de -21,00m. O seu desenvolvimento principal estimado, em projeção horizontal, é de 71m segundo a orientação SW-NE e NE-SW.

Planta

A sua génese parece ter sido muito condicionada pela tectónica e pela fracturação a ela associada. A cavidade, de perfil semivertical, abre-se ao longo do bordo de uma escarpa de falha que é intersetada por várias diáclases (Manuppella et al, 1999). A sua evolução em profundidade (endocarso) estará por certo intimamente relacionada com as águas pluviais, coberto vegetal e manta morta que fez elevar os níveis de CO², aumentando a acidez determinante para a dissolução da rocha calcária e concorrendo para o alargamento das fraturas presentes.
 
Perfil Desdobrado
 
 Não menos importante é o facto da gruta se situar a uma cota inferior a 220m, aspeto que pode indicar que tenha sofrido com as variações dos níveis marinhos ocorridos, durante o pliocénico, aquando da formação da zona aplanada do Cabo Espichel, período em que o mar se situou a estas altitudes (Ribeiro et al, 1987). Poderá, por isso, o mar ter contribuído para o alargamento da cavidade, uma vez que, durante a sua regressão lenta para os níveis atuais, a água doce carregada de CO² se terá depositado sobre a água salgada - devido às densidades - dissolvendo a rocha exposta e alargando as referidas fracturas.

segunda-feira, 24 de Março de 2014


Grutas da Arrábida - Patrimónios que se Revelam
  A Serra da Arrábida não é propriamente uma região de grandes grutas, mas é sim uma região onde as grutas têm características de rara beleza e valor patrimonial. Ao Longo do tempo geológico, no silêncio e na imensidão da escuridão, na maior parte das suas grutas, as salas e galerias foram sendo recobertas e adornadas por formações estalagmíticas de rara beleza, e o resultado foi magnífico.
 
Gruta do Frade
 
 Mas, antes de qualquer desafio de aventura, de coragem ou de atrevimento para lhe aceder, é embrenhando-nos neste universo que verdadeiramente os nossos sentidos despertam. Por ser imensa a paisagem cavernícola da Arrábida, esta faz-nos sentir pequenos em relação ao espaço e ao tempo. Sentimos que aqui a nossa presença não passa de um mero momento, um abrir e fechar de olhos e já tudo passou. Esta paisagem, janela para o passado de momentos da história natural da região, conta-nos uma história que apenas começou e que jamais será terminada.
 
Gruta da Grande Falha
 
Estes mundos, museus da profundidade do tempo, presenciaram a chegada das primeiras comunidades humanas a este território, ainda em pleno período glaciar. O homem rapidamente se deu conta da utilização das grutas para se abrigar e proteger de outros animais, ou, presumivelmente, para realizar as suas experiências mágico-religiosas.
 
Por motivos ainda mal conhecidos, depois da chegada destes primeiros povoadores, há mais de 30 000 anos, seguiu-se um período em que aparentemente as grutas não conservaram testemunhos de actividade humana. 
 
Só mais tarde, há cerca de 7000 anos, com as primeiras comunidades de agricultores-pastores, voltamos a ter a utilização documentada das grutas. Nesta época, as populações vêm as grutas como espaço de repouso final para alguns dos seus entes queridos, existindo, inegavelmente, uma relação simbólica entre as cavidades e as crenças funerárias.
 
É a partir destas comunidades que as grutas registam uma utilização mais regular, atingindo há cerca de 4000 anos, no período da Idade do Bronze, talvez, a sua maior intensidade.
 
As comunidades da Idade do Bronze vão continuar a olhar para as grutas como espaços rituais, sendo que neste caso deixaram artefactos num longo conjunto de cavidades que parece acompanhar a linha de costa, desde a gruta mais a Ocidente, no Cabo Espichel, até à parte Oriental, no Portinho da Arrábida.
 
No final da Idade do Bronze e inícios da Idade do Ferro (séc. XI-X a.C. em torno de 1000 a.C.), as populações persistiram na utilização das grutas, tendo deixado vestígios em várias cavidades.
 
Lapa da Cova
 
Dos Fenícios, há cerca de 3000 anos, está muito bem documentada a utilização da Lapa da Cova como santuário, onde foram deixados muitos artefactos.


No período romano, há cerca de 2000 anos, a utilização das grutas está mal documentada. Esta utilização efectivou-se, talvez, como abrigos, ou numa situação muito pontual.
 
Os séculos VI-VIII parecem trazer para algumas grutas da Arrábida monges anacoretas cristãos, na sua necessidade de fugir ao mundo e se aproximarem de Deus. A sua presença está bem documentada em algumas grutas do Vale das Lapas.
 
Na época Islâmica as pequenas cavidades continuaram a acolher monges muçulmanos, casos das grutas do Vale das Lapas, onde deve ter existido uma madrasa (tipo de escola), dado que na Lapa 4 de Maio foi descoberta e identificada uma tábua de madeira com um excerto da surha (texto religioso) 39 do Corão.

Lapa 4 de Maio (tábua árabe)
 
Depois da época Islâmica há a utilização das grutas por pastores, como abrigos para si e para os seus animais, tendência seguida até aos dias de hoje.
 
Nesta zona serrana, o Património subterrâneo assume características singulares no panorama nacional. Possui testemunhos magnificamente preservados; de paleo-níveis de mar (praias elevadas), de fauna, de beleza litológica e de uma contínua ocupação humana.
 
A Arrábida na sua integridade, e do ponto de vista cultural e etnográfico, pode bem assumir a metáfora de “terras do princípio do Mundo”, espelham-se neste Museu da Profundidade do Tempo que são as suas Grutas e todo o seu Património Subterrâneo.